Mato Grosso do Sul

PANTANAL

O Pantanal, maior área úmida contínua do mundo, esteve nos principais noticiários no ano de 2020 devido aos grandes incêndios florestais que o impactaram duramente. Não à toa: o Pantanal perdeu quase um terço de sua área total para os incêndios. Só no território de Mato Grosso do Sul, 1,7 milhão de hectares desapareceram em cinzas. Segundo o Observatório do Pantanal, cerca de 4,6 bilhões de animais foram afetados e ao menos 10 milhões morreram[1]. Já se sabe que o fogo teve origem em fazendas de gado, tanto em Mato Grosso como em Mato Grosso do Sul, e se espalharam pelo território[2].

Os incêndios florestais no Pantanal brasileiro já vinham fazendo estragos em anos anteriores a 2020, como lembra dona Leonida Aires, moradora da comunidade tradicional pantaneira Barra de São Lourenço e presidente da associação de mulheres artesãs Renascer:

Na verdade o fogo começou em 2019. O fogo a gente só ouvia falar e a gente, quando passava nos lugares, via queimando, mas nunca imaginamos que ia chegar até nós. Aí, em 2020, o fogo foi se achegando, foi se achegando, infelizmente chegou na nossa comunidade. Muitos dos nossos, umas três famílias tiveram que ser tiradas porque o fogo estava bem perto e no mato era muito intenso e a fumaça era muito forte. Como era pessoa de idade, tiveram que sair, os bombeiros tiraram eles, trouxeram aqui pra nossa escola que estava mais tranquilo até eles combaterem mais o fogo perto da casa deles, até poderem retornar pra casa deles. O fogo veio também pro lado de trás da nossa comunidade.

A comunidade tradicional pantaneira Barra de São Lourenço se localiza no município de Corumbá. Ela se encontra em área permanentemente alagada, nas proximidades do limite internacional Brasil-Bolívia, logo abaixo da confluência com rio Cuiabá, habitando uma ilha à margem esquerda do Rio Paraguai. A comunidade possui área de 12.241 metros quadrados e foi declarada como interesse público por parte da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) por meio da portaria Nº 57 de abril de 2016. Atualmente, Barra de São Lourenço luta para que sua área seja demarcada como Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS).

A comunidade conta com 25 famílias, mas esse número, em décadas anteriores, era bem maior. Seu modo de vida está baseado no manejo da pesca, coleta de iscas vivas, cultura do arroz nativo, extrativismo vegetal do aguapé (Eicchornia crassipes, para confecção de artesanato), de frutos e de outros bens naturais, além de agricultura e pecuária de pequeno porte. Utilizam, manejam e conservam o território pantaneiro com conhecimentos e práticas para garantir fartura às futuras gerações.

A região onde se situa a comunidade é uma das áreas mais conservadas do Pantanal, com muitas áreas protegidas, como a Reserva Particular do Patrimônio Cultural (RPPN) e o Parque Nacional do Pantanal, que sofrem os impactos advindos do alto Pantanal, como desmatamentos, agrotóxicos e assoreamento.

Na região do Amolar, como é conhecida, e onde se encontra a comunidade, os incêndios foram mais intensos entre os meses de setembro e outubro de 2020, acometeram as margens do Rio Paraguai, distante 223 km da sede do município e a cerca de 8 horas de barco ao norte de Corumbá (MS). As lembranças dos dias de fogo na comunidade são mencionadas na fala de dona Leonida:

O fogo estava vindo para o lado de trás da nossa comunidade, estava muito quente, muito… ninguém dormia, só ouvia o barulho do fogo que era muito grande, era apavorante o barulho de fogo e esse barulho foi, foi até tornar realidade bem próximo de nós.

Na comunidade, as cenas do fogo causavam medo e indiretamente causavam vítimas entre os moradores:

“O vento era muito forte que deu um temporal enorme e aí a chama se levantava muito longe e ela atravessava o rio. Começava a chama levantar tanto e a pegar fogo do nada. De repente, a gente olhando assim, estava pegando fogo, como se a terra tivesse uma combustão tão grande que pegava fogo do nada. E muita gente se machucou, eu mesma fui uma delas me machuquei, caí na água. E ainda tivemos a perda de uma criança no meio de toda essa loucura, o pai ajudando porque temos uma brigada comunitária e essa criança acabou morrendo afogada.

Dona Leonida. Fotografia: Cláudia Sala de Pinho
Dona Leonida. Fotografia: Cláudia Sala de Pinho

Em anos anteriores, o fogo esteve em áreas próximas à comunidade, sem atingir diretamente o território. Muitas vezes, as pessoas da comunidade colaboraram compondo brigada comunitária e apagando fogo na região, a partir dos conhecimentos tradicionais do território ancestral.

O fogo que atingiu a comunidade no ano de 2020 e 2021 é advindo das áreas próximas, como o Parque Nacional do Pantanal e das fazendas da região, identificadas pela Policia Federal em inquérito que corre em sigilo.

Fogo no entorno da Comunidade de Barra de São Lourenço
Fogo no entorno da Comunidade de Barra de São Lourenço

Além do fogo, choveu cinzas na comunidade

Com todos esses acontecimentos, não contavam com mais um evento que ficou marcado na comunidade: uma chuva de cinzas, deslocadas por um fenômeno climático diretamente para as comunidades. Era o dia 13 de outubro de 2020, como conta dona Leonida:

Bom, aí acabou o fogo, acabou toda essa agonia. Ficamos, como se diz, com aquela sensação que a gente estava em cima do fogo. Que a gente estava sendo queimado vivo porque o fogo estava muito próximo. Pela graça de Deus tudo acabou. Aí nós pensamos que tinha acabado, porque veio uma chuva. Ficamos muito felizes, embora estava tudo tão queimado, tão destruído… Mas infelizmente não tinha acabado.

De repente, começou a ventar e esse vento começou a levantar um borrão preto enorme que a gente não sabia o que era. Não sabia explicar o que que era. De repente, isso aí vinha vindo, vinha vindo… Aí que a gente foi ver que não era fumaça, porque a gente achou: meu Deus, fogo de novo? Voltou a queimar ? E não era, era só cinza, muita cinza e essa cinza veio com tanta força… Aqui a gente tampou as porta, a gente botava máscara assim no rosto molhado, né? Porque a gente já usava assim quando o fogo estava pegando, a gente molhava as máscaras e colocava no rosto pra poder respirar. Aí a gente remolhar uma toalha e jogar na cabeça da gente assim, sabe? Pra poder respirar e cobrir a cabeça da gente. As crianças era mais difícil porque elas não queriam aceitar que estavam com o rosto coberto, botava a máscara delas, elas queriam tirar.

Dentro de casa com a porta fechada, com os panos na porta, a gente se sentia sufocado, aquela falta de ar enorme. E esses aí duravam mais ou menos de quarenta minutos a uma hora até essa cinza passar. Aí de repente, abria, parava a gente voltava a respirar um pouco melhor. Aí passou umas seis, sete vezes essa mesma situação: quando a gente menos esperava, saía um temporal e esse temporal vinha acompanhado disso, das cinzas. Tem muita gente aqui com problema respiratório, teve gente que desmaiou, eu mesma estou com problema, até hoje tenho uma coceira no corpo, outras pessoas também têm, não sei o que pode ser. E já a gente tem que fazer exames pra saber e teve gente que ficou ruim, várias pessoas desmaiaram devido à fumaça, à cinza

As famílias ficaram dias convivendo com as águas barrentas, em decorrência da maior seca dos últimos 60 anos, e que, depois do fogo, se encheram de cinzas. A comunidade segue com medo. Dona Leonida continua seu relato:

E estamos assim, com essas dificuldades de saúde justamente por causa do fogo e por causa dessa fatalidade que aconteceu no nosso Pantanal. Esperamos muito em Deus que isso não volte a repetir, mas estamos com medo, porque a gente já viu vários lugares pegar fogo novamente, e aí vai matar por completo a nossa natureza e vamos passar por mais dificuldade. Porque só com isso que passamos nós não temos quase peixes, não temos iscas; as plantas que a gente planta, se a gente não tá em cima não vai para frente, porque a terra está seca, sem vida e a gente tá aí vivendo de apoiadores.

Como podemos perceber por meio desse relato, a situação desta e de outras comunidades tradicionais pantaneiras está muito difícil. De 2020 para 2021, não houve chuvas suficientes para encher e “lavar” o Pantanal. Com isso, poucas águas estão disponíveis nos rios e córregos, baías e corixos. As águas estão baixas, algumas secando, e barrentas, juntando com cinzas das queimadas. Esse cenário configura uma situação de fragilidade para o ecossistema e as pessoas que vivem, co-vivem e o manejam.

A comunidade Barra de São Lourenço continua enfrentando muitos desafios, em especial aqueles relacionados à qualidade e escassez da água.

Por outro lado, a comunidade realiza diversas ações de esperançar e resistência, como o desenvolvimento de horta comunitária, coleta de frutos para produção de mudas e busca de restauração ambiental e ecológica do território por meio da implantação de viveiro de mudas nativas. Sobre o combate aos incêndios florestais, a comunidade tem buscado fortalecer a brigada comunitária, participando de cursos de combate aos incêndios e realizando diálogo constante na busca de parceiros e projetos para serem desenvolvidos. Sempre na expectativa de que os direitos coletivos como comunidade tradicional pantaneira sejam reconhecidos e efetivados nos rincões do Pantanal.

A atuação do Estado na responsabilização e apuração dos crimes ambientais que causaram danos irreparáveis ao Pantanal faz-se extremamente necessária. A alternativa e a proposição para resolução desses desafios perpassam por proposição de políticas públicas e o reconhecimento de que, em oposição aos incêndios avassaladores do agronegócio, é possível o manejo comunitário do fogo[3], utilizando os conhecimentos tradicionais.

Notas

Sobre o uso tradicional do fogo pelas comunidades, ver neste dossiê o artigo “Saberes que vem de longe: usos tradicionais do fogo no Cerrado e na Amazônia”.

Cláudia Sala de Pinho é coordenadora regional da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira e ex-presidenta e conselheira do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais – CNPCT.