A Articulação Agro é Fogo e a Coalizão Florestas & Finanças – em conjunto com outros 65 parceiros, entre movimentos sociais, coletivos, pastorais, entidades de povos originários e tradicionais, pessoas-pesquisadoras e ativistas socioambientais e climáticos – enviaram nesta segunda-feira, 20 de julho, uma carta às principais instituições financeiras globais. O documento cobra medidas concretas de prevenção a incêndios florestais diante da intensificação do El Niño prevista para este ano, com atenção especial ao financiamento de atividades ligadas ao agro-hidro-mineronegócio.
A carta se apoia em projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) e da Organização Meteorológica Mundial, da Organização das Nações Unidas (ONU), que apontam para um El Niño forte para o ciclo deste ano até 2027. Segundo a rede de cientistas World Weather Attribution, só nos primeiros meses de 2026, mais de 150 milhões de hectares foram incendiados no mundo, área próxima à extensão da Amazônia. No Brasil, a última passagem do El Niño, em 2024, provocou a maior estiagem da história do país, com a fumaça de incêndios atingindo dez estados da Amazônia e do Pantanal.
Para as organizações que assinam a carta, o sistema financeiro também é responsável por essa cadeia: entre 2016 e 2025, bancos concederam, globalmente, US$ 429 bilhões em crédito a setores como madeira, soja, borracha, papel e celulose, óleo de palma e carne bovina nos trópicos. Sendo essas, commodities historicamente associadas ao desmatamento das florestas tropicais.
Entre as medidas cobradas dos bancos estão o fortalecimento de políticas de não desmatamento e não conversão, com veto a crédito para quem faz uso do fogo de forma criminosa em atividades produtivas; o engajamento de clientes dos setores de maior risco florestal; o encerramento de relacionamento com empresas que não cumprirem essas exigências; apoio a corpos de bombeiros e brigadas voluntárias nas regiões mais expostas aos incêndios; direcionamento de crédito para produções agroecológicas e sistemas agroflorestais; e a suspensão de novos financiamentos a grupos empresariais responsabilizados judicialmente por incêndios florestais, até que restaurem integralmente os danos causados.
“O sistema financeiro não pode seguir como espectador dos incêndios que ele mesmo ajuda a financiar. Cada crédito liberado sem exigência de rastreabilidade e responsabilização é uma brasa a mais nos territórios de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Os bancos têm nas mãos um instrumento poderoso de prevenção: basta usá-lo”, afirma Tarcísio Feitosa, coordenador operativo da Articulação Agro é Fogo e membro da Coalizão Florestas e Finanças.
Dentre os bancos aos quais a carta foi direcionada, estão: Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Banco da América (Estados Unidos), BNP Paribas (França), Banco do Nordeste, Mandiri (Indonésia), Itaú, Safra e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Sobre a Articulação Agro é Fogo
A Articulação Agro é Fogo é uma rede em defesa dos povos e terras-territórios em contexto de incêndios criminosos da Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pantanal. Formada por mais de 40 organizações, entre elas pastorais do campo, movimentos, organizações não governamentais, grupos de pesquisas e estudos aliados a essa causa, povos e comunidades tradicionais, se formou no contexto dos incêndios criminosos no ano de 2020. Tem como propósito a articulação de estratégias de incidência política e comunicação popular frente às ofensivas do agro-hidro-mineronegócio, que utilizam de incêndios criminosos, de desmatamento e da grilagem para exterminar modos de vidas ancestrais.
Sobre a Coalizão Florestas & Finanças
A Coalizão Florestas & Finanças é uma iniciativa internacional de Organizações Não Governamentais (ONGs), pessoas-pesquisadoras e aliadas que monitoram e expõem o papel do setor financeiro no desmatamento global e em violações de direitos humanos. Formada por grupos como Amazon Watch, Repórter Brasil, BankTrack, Profundo, entre outros, a coalizão mapeia os fluxos globais de crédito, bônus e ações destinados a commodities agrícolas e mineração em florestas tropicais.
Mais informações
Coordenação de GT-Comunicação Agro é Fogo
João Palhares – agroefogo@gmail.com – +55 11 99016-7755




